Neurociencia & Psiquiatria

Microbiota intestinal e humor: a fronteira que esta mudando a psiquiatria

Dr. Adiel Rios30 abr 202614 min de leitura
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A medicina aprendeu, no ultimo seculo, a tratar a mente como se ela existisse separada do corpo. Os ultimos quinze anos de pesquisa em microbiota intestinal estao desfazendo essa separacao com uma forca que poucos campos da psiquiatria viram. O eixo intestino cerebro deixou de ser hipotese: tornou se um dos territorios mais ferteis para entender depressao, ansiedade e transtornos do humor.

Em 2013, John Cryan e Timothy Dinan, no University College Cork na Irlanda, publicaram um trabalho que se tornaria um divisor de aguas. Eles propuseram o termo psicobioticos para descrever microorganismos vivos que, quando ingeridos em quantidades adequadas, produzem beneficios em pacientes com transtornos psiquiatricos. A proposta parecia, na epoca, quase audaciosa demais. Hoje, mais de uma decada depois, e dificil encontrar um livro texto serio de psiquiatria que nao dedique pelo menos um capitulo a essa interface.

O que mudou? Mudou a evidencia. Mudou o rigor metodologico. Mudou a quantidade de ensaios clinicos randomizados controlados que demonstraram, com clareza estatistica, que a composicao da microbiota intestinal influencia diretamente o sistema nervoso central. E mudou a nossa compreensao de tres mecanismos que ligam o intestino ao cerebro de forma constante: o nervo vago, a inflamacao sistemica de baixo grau, e a producao bacteriana de neurotransmissores.

O eixo que sempre esteve la

Cerca de noventa por cento da serotonina do corpo humano e produzida no intestino, pelas celulas enterocromafins, sob influencia direta das bacterias residentes. Essa nao e uma curiosidade anatomica: e uma engrenagem central da regulacao do humor. O nervo vago, com suas mais de cem mil fibras aferentes que sobem do intestino em direcao ao tronco encefalico, transmite ao cerebro informacoes sobre o estado do microbioma em tempo real. Quando alteramos a microbiota, alteramos o sinal que chega aos nucleos da rafe, ao hipocampo, ao cortex pre frontal.

Em 2019, Mireia Valles Colomer e colaboradores publicaram, na Nature Microbiology, um estudo populacional com mais de mil indivíduos que correlacionou a depressao com depleção especifica de duas familias bacterianas, Coprococcus e Dialister. O achado nao provou causalidade, mas abriu uma porta: pacientes deprimidos tem assinaturas microbianas distintas, e essa diferenca nao se explica apenas pelos antidepressivos que tomam.

O passo seguinte veio dos modelos animais. Quando se transplanta a microbiota de pacientes com depressao para camundongos livres de germes, esses animais desenvolvem comportamento depressivo, anedonia, alteracoes de eixo HPA e da neurogenese hipocampal. Isso foi demonstrado por Kelly e colaboradores em 2016 e replicado por outros grupos. A microbiota nao apenas correlaciona se com a depressao: ela transmite, ao menos parcialmente, o fenotipo.

"Cerca de noventa por cento da serotonina do corpo humano e produzida no intestino. Essa nao e uma curiosidade anatomica: e uma engrenagem central da regulacao do humor."

Inflamacao, permeabilidade e depressao

Um dos mecanismos mais estudados envolve a chamada permeabilidade intestinal aumentada. Quando a barreira do intestino se torna mais permeavel, fragmentos bacterianos como o lipopolissacarideo entram na circulacao sistemica e ativam respostas inflamatorias. A inflamacao cronica de baixo grau, por sua vez, esta hoje firmemente associada a um subgrupo de pacientes deprimidos, particularmente aqueles que nao respondem bem aos antidepressivos convencionais.

Em 2017, Kohler-Forsberg e colegas publicaram uma das metanalises mais influentes sobre o tema, mostrando que pacientes deprimidos apresentam consistentemente niveis elevados de citocinas pro inflamatorias como IL-6, TNF-alfa e PCR. Essa nao e uma observacao trivial: ela aproxima a psiquiatria da imunologia e abre espaco para intervencoes que ate poucos anos atras pareciam estranhas, como o uso de probioticos especificos como adjuvantes terapeuticos.

Probioticos como tratamento: o que funciona

Aqui e onde precisamos ser honestos sobre o que a evidencia atual realmente sustenta. A maioria dos probioticos vendidos em farmacias e supermercados nao tem qualquer estudo de eficacia em saude mental. As cepas que demonstraram, em ensaios randomizados duplos cegos placebo controlados, beneficio estatisticamente significativo em sintomas depressivos ou ansiosos, sao um conjunto restrito.

Lactobacillus helveticus R0052 e Bifidobacterium longum R0175, em uma combinacao especifica, mostraram em estudos de Messaoudi e colaboradores em 2011 reducao de sintomas ansiosos e melhora do bem estar psicologico em individuos saudaveis. Em pacientes com depressao maior, Akkasheh e colegas demonstraram em 2016, em ensaio duplo cego placebo controlado, melhora significativa nos escores de Beck apos oito semanas de suplementacao.

Em 2020, Liu e colaboradores publicaram uma revisao sistematica e metanalise no Journal of Affective Disorders, agregando dezenas de ensaios e confirmando o efeito modesto mas consistente de probioticos especificos sobre sintomas depressivos. Modesto, repare bem. Nao e cura. E adjuvante. E ferramenta complementar, nunca substitutiva.

"Probioticos nao sao alternativa ao antidepressivo. Sao, quando bem indicados, adjuvantes que potencializam a resposta e podem fazer a diferenca em pacientes que estao na zona cinzenta da resposta parcial."

Dieta, fibras e o que comemos: ainda e o pilar central

Antes dos probioticos, vem o que alimenta as bacterias que ja vivem em nos. A pesquisa mais robusta dos ultimos anos sobre psiquiatria nutricional vem do estudo SMILES, conduzido por Felice Jacka e equipe na Australia em 2017. Pacientes com depressao moderada a grave foram randomizados para intervencao dietetica baseada em padrao mediterraneo, ou para suporte social. A intervencao alimentar produziu resposta clinica significativamente maior, com tamanho de efeito comparavel a alguns farmacos.

O que isso nos diz, na pratica clinica? Que dieta importa. Importa muito. E que a interface da nutricao com a psiquiatria deixou de ser opcional para virar parte essencial da avaliacao integrada de qualquer paciente com transtorno do humor.

O que ainda nao sabemos

Seria desonesto fechar este texto sem dizer com clareza onde a evidencia ainda e fraca. Nao temos protocolos personalizados de probioticos para cada perfil de microbiota. Nao temos como prever, com precisao, qual paciente respondera a qual cepa. A heterogeneidade dos estudos e enorme, as doses variam, as duracoes variam, as populacoes variam. O transplante fecal para depressao ainda e experimental, com resultados promissores em estudos pequenos mas longe de aplicabilidade clinica de rotina.

O que temos, com solidez, e a certeza de que a microbiota influencia o humor, de que algumas intervencoes especificas funcionam em determinados subgrupos, e de que ignorar o intestino na avaliacao psiquiatrica de hoje e cometer um erro de omissao cientifica.

O que faco com isso na pratica

Em meu consultorio, a avaliacao do paciente com transtorno do humor inclui sempre perguntas sobre alimentacao, padrao intestinal, historia de uso de antibioticos, e quando indicado, exames complementares. A indicacao de probioticos nunca e generica: e baseada em cepas com evidencia, em doses adequadas, e como adjuvante a um plano terapeutico mais amplo. A nutricao e parte do plano, nao um detalhe a parte. E quando um paciente nao responde como esperado a um antidepressivo bem indicado, o intestino e um dos primeiros lugares onde olho.

A psiquiatria do seculo vinte e um sera, necessariamente, uma psiquiatria mais integrada. O cerebro nao flutua acima do corpo. Pensar o humor sem pensar a microbiota e, hoje, um anacronismo cientifico.

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Referencias

  1. Cryan JF, Dinan TG. Mind-altering microorganisms: the impact of the gut microbiota on brain and behaviour. Nat Rev Neurosci. 2012;13(10):701-712. PubMed
  2. Valles-Colomer M, et al. The neuroactive potential of the human gut microbiota in quality of life and depression. Nat Microbiol. 2019;4(4):623-632. PubMed
  3. Kelly JR, et al. Transferring the blues: depression-associated gut microbiota induces neurobehavioural changes in the rat. J Psychiatr Res. 2016;82:109-118. PubMed
  4. Kohler-Forsberg O, et al. Inflammation in depression and the potential for anti-inflammatory treatment. Curr Neuropharmacol. 2016;14(7):732-742. PubMed
  5. Messaoudi M, et al. Assessment of psychotropic-like properties of a probiotic formulation (Lactobacillus helveticus R0052 and Bifidobacterium longum R0175) in rats and human subjects. Br J Nutr. 2011;105(5):755-764. PubMed
  6. Akkasheh G, et al. Clinical and metabolic response to probiotic administration in patients with major depressive disorder: A randomized, double-blind, placebo-controlled trial. Nutrition. 2016;32(3):315-320. PubMed
  7. Liu RT, et al. Prebiotics and probiotics for depression and anxiety: A systematic review and meta-analysis of controlled clinical trials. Neurosci Biobehav Rev. 2019;102:13-23. PubMed
  8. Jacka FN, et al. A randomised controlled trial of dietary improvement for adults with major depression (the SMILES trial). BMC Med. 2017;15(1):23. PubMed
  9. Foster JA, McVey Neufeld KA. Gut-brain axis: how the microbiome influences anxiety and depression. Trends Neurosci. 2013;36(5):305-312. PubMed