Psicogeriatria

Pseudodemencia depressiva: quando a memoria mente

Dr. Adiel Rios30 abr 202614 min de leitura
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No idoso, a depressao tem um talento perverso: pode simular demencia com precisao tao grande que engana ate clinicos experientes. A diferenca, e isso muda tudo, e que enquanto a demencia degenerativa segue seu curso implacavel, a pseudodemencia depressiva responde a tratamento. Reconhecer essa fronteira nao e detalhe diagnostico. E, frequentemente, a chance de devolver a mente que parecia perdida.

O termo pseudodemencia foi popularizado por Leslie Kiloh em 1961, em um artigo que ja se tornou classico, descrevendo pacientes idosos que se apresentavam com aparencia franca de demencia mas cujo quadro melhorava substancialmente com tratamento da depressao subjacente. Sessenta anos depois, o conceito continua clinicamente util, ainda que a literatura moderna prefira termos como sindrome demencial da depressao ou disfuncao cognitiva associada a depressao do idoso.

O nome importa menos que a realidade clinica que ele descreve: existe um grupo de pacientes em que sintomas que parecem demencia, perda de memoria, lentidao do pensamento, desorientacao, dificuldade de concentracao, sao na verdade manifestacoes de um episodio depressivo grave. Tratar a depressao reverte, em proporcao significativa, esses sintomas cognitivos. Tratar como demencia, sem identificar a depressao, deixa o paciente piorar progressivamente.

O que distingue uma da outra

A diferenciacao clinica entre pseudodemencia depressiva e demencia neurodegenerativa, particularmente Alzheimer em fase inicial, e tarefa que exige treino e cuidado. Wells, em 1979, publicou criterios classicos que ainda hoje informam a clinica, e que foram refinados em revisoes posteriores como a de Brodaty e equipe.

Na pseudodemencia, a queixa cognitiva costuma vir do proprio paciente, com riqueza de detalhes sobre a falha de memoria. O paciente diz, repetidas vezes, que esta esquecendo, que a cabeca nao funciona, que perdeu a capacidade de pensar. Ja na demencia degenerativa, classicamente, e a familia quem percebe o declinio, enquanto o paciente, com graus variaveis de anosognosia, minimiza ou nega.

O inicio da pseudodemencia tende a ser agudo ou subagudo, com piora ao longo de semanas ou poucos meses, frequentemente coincidindo com perdas, lutos, mudancas de vida. A demencia degenerativa tem inicio insidioso, com piora ao longo de anos. Na pseudodemencia, o paciente costuma responder respostas de testes cognitivos com nao sei, nao consigo, sem tentar. Na demencia, ha esforco preservado, mesmo com erro.

O ponto cego do diagnostico

Apesar dessas diferencas, a sobreposicao clinica e suficiente para que o erro diagnostico seja rotineiro. Em uma analise classica de Sachdev e equipe, publicada em 1990, e atualizada em estudos subsequentes, ate trinta por cento dos pacientes inicialmente diagnosticados com pseudodemencia evoluiam para demencia franca em seguimento de longo prazo. Esse achado e crucial: nao se trata de duas categorias estanques, mas de um continuum em que a depressao tardia frequentemente e fator de risco e, possivelmente, manifestacao precoce de processos neurodegenerativos.

Em 2017, Diniz e equipe publicaram, no British Journal of Psychiatry, uma metanalise importante demonstrando que depressao tardia aumenta substancialmente o risco posterior de demencia, com risco relativo proximo a duas vezes em comparacao a controles. O dado nao desmonta o conceito de pseudodemencia. Ele acrescenta nuance: parte dos pacientes que se apresentam com sindrome cognitiva depressiva esta, de fato, em estagio inicial de processo degenerativo concomitante.

"A pseudodemencia depressiva e ao mesmo tempo a chance terapeutica mais promissora e o sinal de alerta mais sutil para neurodegeneracao futura. Ignorar uma e perder ambas."

Como se faz o diagnostico, na pratica

A avaliacao integrada de um idoso com queixa cognitiva e depressiva exige varios pilares. O primeiro e historia clinica detalhada, com cronologia precisa, identificacao de sintomas afetivos especificos, anedonia, alteracao de sono e apetite, ideacao suicida, sentimento de inutilidade. O segundo pilar e avaliacao cognitiva estruturada, idealmente com instrumentos como MoCA, com atencao especial ao desempenho em testes de funcao executiva, memoria episodica, fluencia verbal.

O terceiro pilar e a investigacao laboratorial e de neuroimagem dirigida, descartando causas reversiveis de declinio cognitivo, hipotireoidismo, deficiencia de B12, neurossifilis, hidrocefalia de pressao normal, alem de avaliar marcadores de neurodegeneracao quando indicado. O quarto, e talvez o mais importante na pratica, e o teste terapeutico: oferecer tratamento adequado e otimizado para o componente depressivo, com seguimento estruturado, e observar a resposta cognitiva ao longo de semanas a meses.

Em pacientes que respondem bem ao tratamento antidepressivo, com normalizacao substancial do desempenho cognitivo, a hipotese de pseudodemencia se confirma retrospectivamente. Em pacientes que melhoram do humor mas mantem deficit cognitivo significativo, ha forte indicacao de processo neurodegenerativo subjacente, e a investigacao se estende.

O tratamento que muda trajetorias

O tratamento da depressao no idoso, particularmente quando ha componente cognitivo proeminente, requer cuidados especificos. Antidepressivos sao indicados, com escolha que considera perfil de efeitos colaterais, interacao com outras medicacoes, e particularidades farmacocineticas do idoso. Sertralina, escitalopram e duloxetina figuram entre as opcoes com melhor perfil de tolerabilidade nesse grupo etario, conforme revisoes sistematicas como as de Kok e Reynolds publicadas no JAMA em 2017.

Em casos refratarios ou em depressoes graves com risco suicida, eletroconvulsoterapia continua sendo, ate hoje, a intervencao com maior tamanho de efeito demonstrado em depressao do idoso, conforme recentemente reafirmado em metanalise da rede Cochrane. A Estimulacao Magnetica Transcraniana, que tem ganhado espaco crescente, tambem demonstrou eficacia em pacientes idosos em revisoes recentes, com perfil de seguranca particularmente favoravel.

Acompanhar a resposta cognitiva ao longo do tratamento e tao importante quanto acompanhar a resposta afetiva. A normalizacao da funcao cognitiva apos tratamento adequado da depressao e um dos achados mais gratificantes da pratica psiquiatrica. Pacientes e familiares descrevem como ter de volta a pessoa que parecia ter se perdido.

"O tratamento da depressao no idoso pode devolver a mente que parecia perdida. Mas exige que se reconheca, primeiro, que ela ainda esta la."

O que faco no consultorio

Quando recebo um idoso com queixa cognitiva, particularmente quando essa queixa veio acompanhada de mudancas de humor recentes, perdas, ou eventos estressantes, conduzo avaliacao em paralelo. Nao espero confirmar uma hipotese para investigar a outra. Avalio depressao com instrumentos validados como GDS, e funcao cognitiva com MoCA. Solicito exames laboratoriais de rotina e, quando indicado, neuroimagem.

Inicio o tratamento antidepressivo com criterio, em dose adequada, e mantenho seguimento de proximidade nas primeiras semanas e meses. Reaplico testes cognitivos apos resposta clinica para documentar a evolucao objetivamente. Trabalho em conjunto com neurologistas e geriatras quando ha sinais de neurodegeneracao concomitante. E mantenho a familia informada e envolvida no processo, porque o cuidado integrado e o que produz melhores desfechos.

Acima de tudo, mantenho a clareza de que esse paciente, mesmo aparentemente perdido na propria mente, pode estar a um tratamento adequado de distancia de recuperar uma vida que parecia ja ter terminado. E essa possibilidade, em medicina, exige que nunca se desista cedo demais.

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Referencias

  1. Kiloh LG. Pseudo-dementia. Acta Psychiatr Scand. 1961;37:336-351. PubMed
  2. Wells CE. Pseudodementia. Am J Psychiatry. 1979;136(7):895-900. PubMed
  3. Sachdev PS, et al. The nature and outcome of suspected dementia of depression. Aust N Z J Psychiatry. 1990;24(3):343-353. PubMed
  4. Diniz BS, et al. Late-life depression and risk of vascular dementia and Alzheimer disease: systematic review and meta-analysis of community-based cohort studies. Br J Psychiatry. 2013;202(5):329-335. PubMed
  5. Kok RM, Reynolds CF. Management of Depression in Older Adults: A Review. JAMA. 2017;317(20):2114-2122. PubMed
  6. Brodaty H, Connors MH. Pseudodementia, pseudo-pseudodementia, and pseudodepression. Alzheimers Dement (Amst). 2020;12(1):e12027. PubMed
  7. Alexopoulos GS. Mechanisms and treatment of late-life depression. Transl Psychiatry. 2019;9(1):188. PubMed
  8. Steffens DC. Late-Life Depression and the Prodromes of Dementia. JAMA Psychiatry. 2017;74(7):673-674. PubMed